A partida
Alguns estendem galinhas seguras pelas asas e prometem um bom preço devido à boa cara do freguês…
«Por ser para si.»
…e outros fingem-se zangados pelo regateio da resposta, mas voltam a chamar o cliente quando este finge que se vai embora. O mercado começa cedo, é aproveitar o dia que o sol de Dezembro não dura muito e é logo de manhã cedo que chega peixe acabado de apanhar pelos pescadores que correm o Léman, pelos Benoit e por outros como ele, desembarcado em cestas de verga ali mesmo a dois passos, que até parece que o lago entra pela praça dentro.
Konrad compra pano de Bruges de escarlata para Urseli, a coisa dará um bom vestido, e compra, mais adiante, uma cadelita para os meninos, no mercado. No Molard vende-se de tudo, peixe fresco a que as genebrinas abrem guelras, panos, especiarias, bugigangas, missangas, cereais, resinas, louças, carne seca e também fresca, cidra, arenques em salmoura, madeiras, sapatos, fruta, confeitos e metais, muita coisa, tanta coisa, que Genebra é cidade de trabalho e paz e bom negócio e, caramba, ele bem sabe que vai sentir a falta da cidade nos escassos meses que lhe restam para viver. A cadela tem sono ao seu colo, é uma cachorra igual aos cães da sua infância em Rottweil…
(dizem que os romanos levavam estes canitos nas suas legiões, muita coisa faziam estes romanos, pintavam orfeus, levavam cães assemelháveis a tourinhos e construíram caminhos que ainda hoje dão boa serventia; os romanos, mal comparado, deviam ser como os Médici destes tempos, já que estes também estão em todo o lado e por sinal até vêm todos das mesmas bandas)
… a bichana parece um touro pequenito, dorso negro e malha castanha junto ao peito; já se sabe que as cadelas darão mais problemas, põem-se com cios e aparecem em casa com filhotes, é sempre uma maçada mas paciência, os meninos irão gostar de cuidar dela e aprende-se muita coisa com os bichos. Os cães são bons e são fiéis e não nos traem, o mesmo custa a dizer dos homens e da vida. A cadela vai aconchegada ao seu peito, dentro da capa felpuda e quente comprada há dias depois de o fogo da oficina lhe ter consumido muita roupa. No calor, adormece bem depressa e mija-lhe a camisa enquanto dorme. Konrad sorri. Embeiçou-o o olhar desamparado e meigo que a bicha exibia num cesto do Molard, até parecia o olhar de Gex e seus comparsas quando os foi buscar ao Castelo da Ilha, só faltava mesmo o mercador cuspir caroços de azeitona meridional com precisão militar e muito orgulho.
«Mestre Witz!»
O carroceiro chama-o ao longe, abanando o braço em cima da carroça que ambos levará a Basileia.
«À hora certa, mestre Witz. Dê cá esses sacos. Suba.»
O carroceiro espreita a cachorra amodorrada dentro da capa, enquanto Konrad olha à sua volta.
«Procura alguém, mestre?»
Konrad deixa de olhar em torno.
«Não. Podemos ir.»
Há muito para andar ainda, que até Basileia são uns dois dias bem puxados, e isto porque os basileus alinhavaram os caminhos há uns anos, quando aquele concílio teimoso e agora moribundo foi convocado, senão...
Atravessam a ponte para norte, para trás ficam o Cornavin e o Ródano correndo forte para o lago mais além, onde há ainda uns pescadores aproveitando o resto da manhã. Um deles ri. As gargalhadas bem se ouvem trazidas pelo ar húmido da neblina. Konrad observa-os enquanto a carroça passa a ponte. Duas raparigas levam cestas, se calhar vão também para o mercado, mais certo ainda é ouvirem dichotes se um dos pescadores as vê. A margem onde Konrad pintou o derradeiro quadro está vazia, e Konrad decide não olhar mais para trás, não olhar para a margem esquerda do Léman, onde Genebra surge emoldurada pelas modestas montanhas do Petit Saléve ou pelas árvores despidas dos Voiron. Não há roupa a secar ao sol, nem hoste alguma se aproxima da cidade. Mas é inútil. Contrariando o decidido, Konrad olha para trás uma derradeira vez, já na outra margem, perto de Les Pâquis.
«A despedir-se da cidade, não é, mestre Witz?»
Os pescadores ainda riem. Perto, há uns pardieiros. Coisa reles, mais própria para animais que para gente. Que Deus os guarde.
Konrad não responde ao carroceiro. Ei-lo regressa a Basileia, amparando uma cadela que o mija e que vai aconchegada ao seu peito doente, ao seu peito podre e macerado aonde não reside já nenhuma esperança; não há dúvida, o destino dá voltas esquisitas.
«Se eu for muito depressa, diga-me, mestre.»
«Nunca irá demasiado depressa, homem.»
A resposta é sincera e expedida, pudera, pudesse a carroça esvoaçar nos ares e chegar a Basileia ao fim da tarde e coisa melhor não poderia acontecer a quem desta maneira tem tanta ânsia de rever casa e família, ainda que tenha de lhes dizer que...
«Não se preocupe, mestre, as rodas aguentam-se ao balanço.»
Numa curva do caminho surge um grupo de moços farrapeiros, sujos de vários anos de má vida. Correm ao lado da carroça, agitam os braços um pouco à toa e dão até uns saltos meio-trôpegos.
«Adeus, pintor fino.»
Isto gritam, a sua voz confundindo-se com o barulho do rodado no chão duro e com o som da brisa a soprar nas ramarias.
«Adeus, pintor fino.»
Esta chusma de fedelhos maltrapilhos é já de Konrad uma velha conhecida. É a chusma fandanga de pedintes, de pequenos larápios, de pequenos vilões, de pequenos rufias, de pequenos malfeitores que sempre existe em todas as cidades. Amanhã poderão ser arregimentados para as hostes mercenárias com o fito de fazer o trabalho sujo dos poderosos; amanhã poderão ser a escumalha soldadesca que falará grosso e mijará alto; amanhã poderão ser arrenegados por meirinhos, por curas e alcaides quando entrarem numa vila ou numa aldeia saqueada e abrirem a cabeça aos homens e as pernas às mulheres; amanhã ainda, não terão história, pois nunca a vida lhes permitiu tamanho luxo. Mas hoje são apenas uns fedelhos que se esqueceram da infância, são a companhia de Gex e seus iguais, são os que rodeiam a carroça onde Konrad parte e o saúdam…
«Adeus, pintor fino.»
…com as mãos sujas e já velhas de sete ou de oito anos, e que fazem o dito pintor fino olhar em torno uma vez mais, assim como quem busca.
«Arreda!», grita o carroceiro agitando a chibata para os moços, com cara de ralhete e desafio.
«Deixe-os. Eles não nos farão mal.»
«Conhece-os, mestre?»
«Sim. Conheço.»
E o evidente orgulho da resposta ainda mais espanta o velho carroceiro. Lentamente vai a chusma ficando para trás, a vozearia extinguindo-se ao longe…
«Adeus, pintor fino.»
…sumida na poeira da estrada. Konrad apenas vê que dois ou três dão saltos tontos, e que outros dois rebolham pelo chão numa bulha simulada de catraios. E será porventura por culpa dessa poeira que os olhos de Konrad se vão enchendo de humidade, à medida que os vultos dos mancebos se somem numa curva da estrada e a cachorra se lhe espreguiça junto ao peito.
«Olha outro…»
Quem pode levar a mal a voz desconfiada do carroceiro? Na verdade, uma mancha vermelha está um pouco adiante, imóvel à beira do caminho.
«Este também é seu conhecido, mestre Witz?»
«Pode parar a carroça ao lado dele só por um instante?»
«O mestre manda.»
Claro que Gex mal olha para Konrad, como se fosse por acaso que ali está. Fingindo uma indiferença mal amanhada, os olhos desfilam-lhe pela carroça até se fixarem na cabeça da cachorra que desponta de dentro da capa acolhedora. Mas por um momento, por um momento apenas, os olhos do coxo cruzam-se com os de Konrad, e é bastante. Depois, aconchegando a capa vermelha, gasta e um pouco larga, Gex dá logo meia volta, esfrega os olhos remelosos e regressa a Genebra, coxo, boto e saltitante como sempre.
«Vamos, mestre Witz?»
Ouve-se o vento a soprar nas ramarias, o som do rodado no chão duro e um latido muito fino de quando em vez.
O resto é silêncio.
quarta-feira, 4 de março de 2009
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